Depressão e ansiedade sob a ótica ampliada das práticas integrativas e complementares em saúde
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Depressão e ansiedade sob a ótica ampliada das práticas integrativas e complementares em saúde

16/09/2020
Alberto Reis

A Medys, juntamente com o Cidadela apoia a difusão de informação relevantes baseadas em artigos científicos, desta forma estamos disponibilizando materiais elaborados pelo CABSIn, Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa, que trazem informações importantes para a gestão da saúde e do bem-estar da população.

 
Nunca se falou tanto de cuidados em saúde mental, especialmente de depressão e ansiedade, nos tempos atuais. Os dois principais transtornos de saúde mental do século 21 ganham visibilidade em meio à pandemia do novo coronavírus, face à prolongada quarentena adotada para conter a disseminação do Covid-19. Um estudo da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, estima que a falta de contatos sociais – essenciais para conter o avanço do vírus, já que não temos ainda remédios nem vacinas – traz riscos à saúde comparáveis a fumar 15 cigarros por dia e chega a ser duas vezes mais danosa que a obesidade, outro problema de saúde que vem crescendo desde 1980. Se tomarmos como exemplo o que aconteceu em 2002 e 2003, na China, durante a pandemia de Síndrome Aguda Respiratória Severa (SARS), espera-se uma avalanche de problemas de saúde mental nos próximos meses. Afinal de acordo com levantamento feito por pesquisadores do King’s College London, na Inglaterra, publicado recentemente no periódico científico The Lancet, houve um aumento de 30% nos casos de depressão, ansiedade e estresse pós-traumático entre os indivíduos que ficaram em quarentena no país asiático.

Não é de hoje, porém, que a depressão e a ansiedade alardeiam o mundo. Elas recrudescem não só pelo real aumento na frequência como também pelo diagnóstico mais preciso. Conforme sugerem alguns especialistas, deixaram de ser um tabu, fazendo com que mais pessoas buscassem tratamento e diagnóstico, e porque, por outro lado, a vida moderna, acelerada, cercada de imposições em ser feliz, bem-sucedido e estar o tempo todo conectado, sem qualquer aproveitamento do tempo presente, elevou o número de pessoas com as doenças. Em relatório apresentado em 2017, a OMS chamou atenção para a expansão da depressão: a doença já afetava 322 milhões de pessoas no mundo, quase a população dos Estados Unidos. No Brasil, os números alcançaram a marca de 11,5 milhões de indivíduos. De acordo com a entidade, a doença será a mais comum em 2030.

O mesmo acontece com a ansiedade, implicando ao Brasil, segundo o relatório da OMS, o preocupante título de país campeão do transtorno. O documento revelou, na ocasião, que 9,3% da população brasileira sofria com o problema de ansiedade, taxa três vezes maior que a média mundial, superando ainda os Estados Unidos, cujos valores foram de 6,3%. Assim como em outros continentes, as mulheres são as mais afetadas pela ansiedade nas Américas: 7,7%, contra 3,6% dos homens.

Aos números de pessoas que sofrem de depressão e ansiedade soma-se outro preocupante cenário: a prescrição abusiva de benzodiazepínicos e opioides. A primeira classe de medicamentos, os benzodiazepínicos, estão entre os medicamentos mais prescritos no mundo, a exemplo dos populares Diazepam e Clonazepan (Rivotril). São de ação ansiolítica e relaxante muscular, destinam-se ao tratamento de condições psiquiátricas e neurológicas, incluindo ansiedade, insônia, fobias, síndrome do pânico e distúrbios convulsivos. A segunda classe de medicamentos, derivados naturais ou sintéticos do ópio, seiva da papoula, inclui morfina, codeína, heroína, oxicodona, meperidina e Fentanil, comumente usadas no tratamento das dores crônicas e agudas, pós operatórios e controle dos condições oncológicas. As duas classes representam drogas depressoras do sistema nervoso central, causam dependência química e síndrome de abstinência, ou seja, provocam a necessidade de consumo quando a pessoa fica com ausência da droga no organismo.


Em 2016, a FDA (Food and Drug Administration, agência regulatória de saúde dos EUA) alertou que as duas drogas, em combinação, trazem riscos graves de sonolência extrema, depressão respiratória, coma e, inclusive, morte. Apesar dos riscos, nos EUA, entre os anos 1992 e 2015, a prescrição das drogas cresceu 222% – sendo que, entre 2000 e 2014, 164 mil pessoas morreram em decorrência da sobredosagem dos medicamentos. Na mesma direção, o Brasil ocupa o segundo lugar no mundo quanto ao consumo de benzodiazepínicos e, desde 2008, é o maior consumidor de Clonazepan. Em 2015, por exemplo, foram vendidas no país 23 milhões de caixas do famoso Rivotril, enquanto em 2007 o número não passava de 29 mil.

Aliadas da promoção da saúde

O cenário é preocupante, e os desafios são grandes face à pandemia do Covid-19 e, antes mesmo do que é considerado o maior desafio sanitário do século 21, ao baixo acesso ao lazer, ao estresse crônico, ao convívio constante com a violência, principalmente na periferia dos grandes centros urbanos, entre outros fatores socioculturais. Por isso, os Mapas de Evidências Clínicas em Medicinas Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI) – como a OMS nomeia as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) – chamam atenção para as PICS e como elas podem ser importantes aliadas no tratamento de transtornos importantes da atualidade, promovendo inclusive a redução do consumo de ansiolíticos e antidepressivos. 


O trabalho científico, sob a condução do Consórcio Acadêmico Brasileiro de Saúde Integrativa (CABSIn) e do Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde da Organização Pan-Americana da Saúde (Bireme/OPAS/OMS), com o apoio da Coordenação Nacional das Práticas Integrativas e Complementares de Saúde do Ministério da Saúde, lança luz sobre os benefícios dos recursos integrativos e complementares não farmacológicos, a exemplo da meditação, bem como dos recursos farmacológicos, como a fitoterapia, cujas abordagens buscam “estimular os mecanismos naturais de prevenção de agravos e a recuperação da saúde, com ênfase na escuta acolhedora, no desenvolvimento do vínculo terapêutico e na integração do ser humano com o meio ambiente e a sociedade”, conforme descreve a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS (PNPIC). “Quando não tratada, a ansiedade e a depressão podem ser agravadas para problemas de saúde crônicos mais graves e complicados no controle. Farmacologia e psicoterapia representam o tratamento convencional para transtornos de ansiedade e de depressão, mas estes apresentam eficácia limitada, especialmente no caso da ansiedade crônica”, adverte a pesquisadora em Saúde Integrativa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais e diretora do CABSIn, Gelza Matos Nunes. 


O presidente do CABSIn, Ricardo Ghelman explica que, para um dos sistemas médicos complexos das MTCI, a racionalidade da Medicina Antroposófica, que bebe diretamente de Hipócrates (século IV aC), existem quatro tipos de depressão relacionados aos quatro elementos naturais – terra (biles negra), água (fleuma), ar (sangue) e fogo (bile amarela) –, que se expressam como melancolia associada ao pulmão (tradução em português de biles [cole] negra [melanos]), depressão clássica associada ao fígado, depressão ansiosa relacionada aos rins e adrenais e depressão existencial relacionada ao coração. Cada uma, com um tratamento específico. 


Em todos os casos de depressão e ansiedade, a força interior (do self) pode ser acionada. Não por acaso que a meditação foi um dos recursos integrativos eficazes e seguros no tratamento dos transtornos mentais, em especial no cuidado das pessoas com depressão e ansiedade, muito encontrados na análise dos Mapas de Evidências Clinicas em MTCI. Uma revisão sistemática dos métodos mistos dos efeitos da meditação de atenção plena – mundialmente conhecida por mindfulness – nas enfermeiras1, publicada em 2017 e registrada pela National Library of Medicine, destacada pelos Mapas, revela que este tipo de meditação melhorou significativamente a saúde mental das profissionais da saúde. “Poderia ser usado em programas de promoção da saúde”, sugerem os autores da pesquisa. Eles acrescentam em suas conclusões: “Pesquisas futuras devem explorar ainda mais os impactos a longo prazo da atenção plena no desempenho e bem-estar no trabalho, usando projetos metodológicos sólidos”. 

A meditação de atenção plena ou Mindfulness foi desenvolvida pelo Dr Jon Kabat-Zinn na Universidade de Massachusetts, que a partir da meditação clássica budita extraiu um programa contemplando a essência do método e definiu um período de semanas como período mínimo para se atingir mudanças consistentes na condição de saúde física e mental. Um programa especial voltado a redução de stress se transformou num difundido protocolo de 8 semanas – MBSR (Mindfulness Based Stress Reduction) – que se tornou num case de sucesso aliando evidencias científicas e aplicação em larga escala mundial.

Redação: Katia Machado - Veja a matéria completa 

Revisão: Veronica Abdalla, Ricardo Ghelman e Gelza Nunes

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