A família educa e a escola ensina

A família educa e a escola ensina

19/03/2019
Luiz

Circula nas redes sociais publicações que apresentavam o papel da escola na educação de crianças e jovens, apresentando de forma muito sistematizada que o papel da escola é ensinar e o papel da família é educar.  

Essa publicação teve enorme visibilidade, pois foi amplamente divulgada sobretudo por professores e gestores escolares, talvez por acreditarem que no cotidiano da escola, com essa ideologia, as crianças chegariam na escola mais obedientes, respeitosas e atentas, pois o papel de educa-las seria da família. Porém, essa visão do papel da educação escolar contrapõe até mesmo o motivo do surgimento da própria escola.

A Educação é tão antiga quanto a humanidade. Seres humanos necessitam ser educados, e sempre foi assim, em qualquer momento histórico. Se a humanidade aprendeu a sobreviver e dar sequência nas práticas culturais, como caçar, pescar, fazer fogo, sobre o dia e a noite, sobre como comportar socialmente, foi devido a educação que recebeu. Inclusive se os conhecimentos e comportamentos modificaram ao longo dos tempos, a educação foi a responsável. Porém, nem sempre a educação dos mais jovens ocorreu na escola, a própria família e seus escravos e/ou empregados tinham o papel de educar.

Por que então surgiu a escola? Na Antiguidade a escola foi criada pela elite, transferida a responsabilidade da formação tradicionalista dos mais jovens. A educação do povo, normalmente era junto à própria família e para os filhos dos nobres e altos funcionários a responsabilidade de educa-los foi transferindo para as escolas, onde aprendiam sobre as línguas, escrita as regras de conduta, valores religiosos e morais, levando à perpetuação dos costumes da nobreza, mantendo as hierarquias e o poder dos que tinham acesso à escola.

Já na Grécia buscou-se a educação integral, que inicialmente era também papel da família, mas depois compartilhada com a escola com a criação das polis (cidades gregas). Em Esparta os meninos eram retirados de suas famílias aos sete anos de idade para uma educação militar.

Revendo esses contextos históricos é possível entender que, desde da sua criação, a escola teve o papel de formação humana, educando e ensinando aos mais jovens. O papel da escola não é, desde a sua criação, apenas ensinar os conteúdos e conhecimentos construídos historicamente, divididos por disciplinas.

A função da escola é educar. Educação é um processo que determinará e será determinada pelo modelo de sociedade que se busca e em qualquer momento histórico está relacionada à formação do ser humano. A “formação compreende disciplina e instrução” (KANT, 1999, p. 14).

A disciplina é a incorporação dos comportamentos sociais, culturais, de acordo com contexto histórico, social, cultural onde a escola está inserida. Inicialmente a disciplina busca educar o “animal humano” às normas sociais e culturais, princípios necessários para o convívio em uma sociedade civilizada. Depois com liberdade, busca-se o desenvolvimento da ética e moral.

A instrução está relacionada ao conhecimento, construído ao longo do tempo. Conhecimento necessário para a manutenção e desenvolvimento das práticas culturais, da tecnologia (em todos os sentidos) e da ciência, de acordo com os princípios humanos e sociais.

Entender a educação escolar apenas como desenvolvimento dos conteúdos de cada disciplina é privar o sujeito do desenvolvimento humano integral, do aprendizado dos princípios de convívio social, da própria formação humana.

Há outra questão importantíssima a se considerar: Atualmente a tecnologia possibilita o fácil acesso à vídeos com falas e imagens extremamente didáticos, que facilitam o aprendizado de qualquer conteúdo das disciplinas escolares. Nesse sentido, se esse é o único papel da escola, podemos questionar se não seria mais eficiente aulas virtuais para ensinar os conteúdos disciplinares. Talvez esse seja o interesse que está por traz de estabelecer para a escola o único papel de ensinar conteúdos.

Transferir para a escola a única tarefa de ensinar é transferir para a família toda a responsabilidade de educar e como sabemos há vários contextos familiares que não possibilitam educar seus filhos.

Certamente o nosso trabalho como professores nas escolas seria muito mais fácil se nos deparássemos com crianças e jovens extremamente educados (ou seria servis) para que possamos apenas desenvolver os conteúdos escolares. Porém, se a formação já está finalizada (se é que isso acontece em algum momento da vida) seria reduzido o papel do professor na escola e corremos o risco de seu papel ser questionado, considerando que há tecnologia eficaz disponível para o ensino dos conteúdos escolares?

Ademais, determinar para a escola o único papel de desenvolver os conteúdos leva ao pensamento que o único resultado que importa na educação escolar é o resultado final nas avaliações nacionais (ENEM, por exemplo) e todo o processo educativo ao longo do tempo escolar é pouco importante.

Não se trata de transferir para a escola o papel de educadores que deve, na verdade, ser compartilhada com os pais e familiares, mas também não podemos, como educadores, nos eximirmos da responsabilidade de formação (ensinar e educar) dos estudantes que trabalhamos e temos a oportunidade de educar.

Um conhecimento aprendido na escola e reforçado ou necessário para o dia-a-dia do lar, é muito mais fácil de ser apreendido. Da mesma forma um comportamento que é apresentado pela família e é reforçado no cotidiano escolar, certamente gerará a sua incorporação e valorizado por toda a vida. Dessa forma, a escola e a família têm o papel de formação dos mais jovens, nesse sentido, os dois contextos são responsáveis por ensinar e educar.